quinta-feira, 15 de dezembro de 2011


Irônica Desventura

Longe se ia o coveiro ao cemitério,
Aos soluços carpindo a desgraceira;
Levando a velha, sempre companheira,
Pá, num labor horrífico e funéreo;

E sobre um mausoléu pétreo e cinéreo,
Tanto se debruçava pela beira
Das lájeas; tal qual uma atra caveira,
Gemendo num tormento tão cimério.

E o que tanto o afligia o peito, forte...
Dizia para as pedras moribundas:
— Que destino este meu! Que triste sorte!

Mas, aquele que muitos; sepultava...
Por das covas a sete palmos fundas;
“Naquele dia a amada ele enterrava!”

Derek Soares Castro

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


Nos Braços de Maria

Recordo-me da imagem d'outro dia,
Daquele Cristo lânguido e cansado,
Todo chagado, mole e extenuado,
Caído no regaço de Maria.

Seu esvaído lábio parecia
Dizer o adeus dum jeito sussurrado;
E de Maria, o pranto soçobrado,
Na lágrima mais triste que caía.

Sua cabeça débil sobre o braço
Pendia por cair; e num abraço
Maria olhava os seus olhos sem brilho...

Na comoção divina que se via,
Parecia que o lábio de Maria,
Dava-se a chorar: — Meu Filho! Meu Filho!

Derek Soares Castro

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Etapas de um Adeus (Trilogia)
(Com Alysson Rosa)

  
O Velório

Puseram-na no féretro, entre as flores,
Trajada em mortas sedas dum vestido;
Guardava em mãos um terço revestido
Por pérolas d'egrégios esplendores.
  (Derek)

Lembrava um anjo meigo adormecido!
Consigo, no caixão, levava as dores,
Mas ainda, no semblante sem fulgores,
Notava-se vestígios de um gemido...
  (Alysson)

E no interior da sala derradeira,
Na prisca longarina de madeira,
Tal carpideira em lágrimas se ajunta.
  (Derek)

Em volta do ataúde, negras velas
E a derreter também, choravam co'elas
Os entes mais chegados da defunta.
  (Alysson)

***

O Cortejo

Numa manhã luctífera e outonal,
Um préstito funéreo prosseguia,
Levando o frio esquife que possuía
O corpo duma musa sepulcral.
  (Derek)

A flauta, em abissal melancolia,
Acompanhando os passos do pessoal
Que acompanhava a morta, soava igual
À dor que o vento lúgubre assobia.
  (Alysson)

E nessa linda e triste melodia,
Além do soluçar, também se ouvia
Cantar chorando os anjos pelos céus.
  (Alysson)

E num caminho tétrico e eternal,
Seguia ao longe o préstito final,
Sumindo dentre os velhos mausoléus...
  (Derek)

***

O Funeral

Ao pé da vala a turba deplorava,
A olharem o coveiro preparar
O derradeiro abrigo, o atroz lugar,
Que a morta tristemente já aguardava.
  (Derek)

Enquanto triste o padre sufragava
As preces que pairavam sobre o ar,
A lura aberta ansiava devorar
A caixa em que a finada repousava.
  (Alysson)

O povo estava em pranto, soluçando,
Enquanto a fúnebre urna foi baixando,
P'ra então permanecer naquela cova...
  (Alysson)

Caíam brancas flores encobrindo
O lúrido ataúde que partindo,
Descia à terra lúgubre que o encova!
  (Derek)

***
Derek Soares Castro / Alysson Rosa
Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011


Nossa Mocidade

À Minh'Amada por todos esses anos juntos

Lembra-te Amor, dos tempos tumulares,
Aqueles dias negros e marmóreos
Que andávamos naqueles prados flóreos,
Na solidão dos túmulos, milhares.

Lembra-te Amor, também d'outros lugares,
Daqueles nouteceres ilusórios,
Que ouvíamos os sinos merencórios
Do alto dos campanários, pelos ares.

E apenas as memórias nos ficaram...
Pois, desses tempos todos só restaram,
Saudades, nostalgias, tantos ais...

Guarda contigo todas as memórias,
Nossas sacrais, miríades d'histórias,
Que os tempos — Meu Amor — não trazem mais!


Derek Soares Castro


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

(Catedral Metropolitana de Porto Alegre - Foto por Derek Soares Castro)

Lamentos de Bronze

Do prisco campanário, o brônzeo sino,
Novamente repica o seu lamento,
Em um réquiem tão triste e mofino,
Nesse Ângelus silente e macilento.

Que sonância! Que treno tão divino!
Que profundo e nostálgico memento!
Que fica soluçando sem destino
Enchendo d'ecos todo o firmamento.

Do campanário, longe, s'estremece...
Esse badalar tal qual uma prece,
Tilintando repleto d'aflição!

O meu peito é este prisco campanário,
Onde o meu coração tão solitário,
Badala a soluçar de solidão!

Derek Soares Castro


terça-feira, 25 de outubro de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)

Cristo de Mármore

Se este Cristo marmóreo escutasse
Os segredos que um dia trocamos,
As promessas que outrora juramos,
— Ah, talvez que Ele a rir se cansasse;

Se este Cristo marmóreo lembrasse
Dos amores que nós sustentamos,
Tudo aquilo que nós partilhamos,
— Talvez Ele hoje, então duvidasse.

Se o que rimos aos nossos vint'anos,
Ais d'amor, ais de sonhos e enganos...
E se então tivesse olhos e visse,

Os espectros que nós hoje somos,
Tão mudados daquilo que fomos...
— Talvez que Ele a chorar se partisse.

Derek Soares Castro

* Versos Eneassílabos em Gregoriano Anapéstico (3ª, 6ª e 9ª)
*Adaptação em soneto do epitáfio “A Pedra” de Carlos Amaro.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)

Lembrança Eterna

Pouca coisa restou-me em memória,
Desses tempos que te ias comigo,
Das mãos nossas; tal como castigo,
Separaram-se! — Vil trajetória!

Nossa vã mocidade de glória,
Fez-se um findo passado, atro, antigo.
E quiçá, entre algum pétreo jazigo,
Por completo perdeu-se essa história...

E de tudo que outrora nós fomos,
Ficou à sombra duns cinamomos,
Nossa imácula e terna aliança.

Ficou lá... Junto aos anjos marmóreos,
Dentre os tétricos túmulos flóreos,
Nossa mais bela e doce lembrança.


Derek Soares Castro

* Versos Eneassílabos em Gregoriano Anapéstico (3ª, 6ª e 9ª).

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)

Jazigo Perpétuo

Por entre esses jazigos funestos,
Que noutrora passávamos rindo...
Hoje quando a passar, vejo-te indo,
Meneando-me o adeus em teus gestos.

E assim, vejo-te longe partindo,
No negror dos sepulcros tão mestos...
Tu deixaste-me apenas os restos,
E o amargor dum pesar tão infindo!

Dessas árvores — esse cipreste,
Dos segredos que outrora me deste,
Ele deve guardar na memória...

Desses túmulos — esse jazigo,
Ele deve guardar, tão consigo,
O romance de nossa atra história.

Derek Soares Castro

* Versos Eneassílabos em Gregoriano Anapéstico (3ª, 6ª e 9ª).

terça-feira, 27 de setembro de 2011


As Minhas Mãos

As minhas mãos são mortiças, esguias;
Vagos fantasmas, perdidos e absortos,
Têm a frieza dos túmulos mortos
Das pedras brancas, marmóreas e frias...

Enlanguescidas, tão magras, vazias...
Têm os relvedos de fúnebres hortos;
E os dedos longos, ebúrneos e tortos,
Formam arcaicas colunas sombrias...

Têm o requinte de góticas naves,
Marmorizadas, regélidas, graves,
São assimétricas, lúridas, cruas!

Ah minhas mãos! Solitárias, errantes,
Tão cadavéricas, tristes, minguantes,
Nunca encontraram as sedas das tuas!

Derek Soares Castro

* Versos decassílabos no ritmo Provençal / Gaita Galega (4ª, 7ª e 10ª).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


Jardins de Mármore

Naqueles campos cinéreos, antigos,
Nos corredores mortais, derradeiros,
D'onde a brumosa fatal dos sobreiros
Cobre os umbrosos, silentes jazigos.

Os monumentos em pétreos castigos,
Tão taciturnos, sem vida, sem cheiros!
Tão lacrimosos nos vis nevoeiros
Desses jardins d'esquecidos abrigos.

D'arquitetura dos anjos tristonhos,
Em formas lúgubres, rostos medonhos,
Tão embuçados nos tempos, antigos...

E eu contemplando, passava olvidado,
Dentre os ciprestes; tão triste e cansado,
Na paz perpétua dos mortos abrigos!


Derek Soares Castro

* Versos decassílabos no ritmo Provençal / Gaita Galega (4ª, 7ª e 10ª).

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)

Herança Perpétua

Quando eu me for à negra sepultura,
Em passo dum cortejo, sem ninguém;
Hei-me de ouvir nas árvores o amém
Das folhas farfalhando com tristura.

E tu Amor, tu hás de ouvir d'alguém,
Ou d'algum necrológio, porventura,
— A nota duma morta criatura —
Que partiu a chorar rumo do além.

Mas, não te fiques triste, nem saudosa,
Não me leves nenhuma bela rosa
Para enfeitar o meu último abrigo.

Pois, quando perceberes ao teu peito,
Um pulso enamorado e satisfeito,
É o meu coração, qu'eu deixei contigo!

Derek Soares Castro

sábado, 10 de setembro de 2011


Anne Says

Daquela última vez qu'eu vi teu rosto,
Numa expressão final, a face linda;
Do nosso último beijo eu sinto ainda
Aqui nos lábios meus aquele gosto.

Da tua boca, o lábio teu proposto,
Tem-me a escutar tão triste e trágica, inda,
Toda aquela palavra que não finda,
Aquele adeus que então me foi imposto.

Sob as chuvas daquele anoutecer,
Deixaste-me tão só, morto ao te ver,
Deixando o calafeto; os braços meus;

Todas as noutes, desde esse atro dia,
Escuto o lábio teu que me dizia
Sussurrando a chorar: — Adeus! Adeus!

Derek Soares Castro

terça-feira, 30 de agosto de 2011


No Silêncio dos Túmulos

No fim daquelas tardes tão sombrias,
Eu t'esperava num soturno abrigo,
E tu chegavas dentre algum jazigo
De passo em passo; e pulcra me sorrias.

Se me recordo o livro que trazias
Por entre aquelas alvas mãos, contigo.
Sentavas — Meu Amor — junto comigo,
E aqueles versos lúgubres tu lias...

Eu contemplando ouvia enternecido,
A sair do teu lábio enegrecido,
A melodia dum som tão etéreo.

Parece-me estar inda t'escutando,
A tua voz bem branda recitando:
“O mar é triste como um cemitério!”

Derek Soares Castro

terça-feira, 23 de agosto de 2011


Flores Mortas

À Maria Elizabeth

Junto ao leito final, que ela dormia,
Das pequenas mãos sobre o peito; erguidas;
Um sudário de flores fenecidas,
Encobriu-lhe o esqueleto que jazia.

Tão branca quanto à neve se fazia;
Tons de morte — nuanças esbatidas;
Rosa bela das rosas falecidas,
— Era ela que tão pálida dormia. —

Em azuis tão celestes, como os céus,
Ela estava vestida em claros véus,
Para as suas exéquias prometidas.

No áureo esquife dos últimos amores,
Ela dormia dentre as murchas flores;
— Era a bela das belas falecidas! —

Derek Soares Castro

segunda-feira, 15 de agosto de 2011



Cerimonial

Nas pompas finais, quando tu partiste,
Vi-te dentro dum féretro, deitada;
E tu te ias num préstito, embalada,
Numa cadência tão muda e tão triste...

Descias pelos ventos mais celestes,
Deixando na minh'alma uma navalha.
Ao ver-te assim tão jovem na mortalha
De bordados, rendilhas, alvas vestes...

As tuas mãos, tão finas, tão esguias,
Eram mãos de adeus, eram mãos tão frias,
Presas por dois rosários muito antigos...

Adormecida em teu esquife, te ias...
Descendo as ruas ermas e sombrias,
Na soledade eterna dos jazigos!

Derek Soares Castro / Aarão Filho

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

(Cemitério do Horório Lemes - Foto por Derek Soares Castro)

Entendendo...

Recostado à cruz duma sepultura,
À penumbra gelada dum cipreste;
Rememoro dum beijo que tu deste
No semblante feral dessa escultura;

E também me recordo da negrura
Dos cabelos teus — tua negra veste;
— Já me não há mais nada que me reste,
Senão todo o agro fel dessa amargura!

Ouço ainda por esses corredores,
Teus coturnos em passos sofredores,
Lentamente passando, se arrastando...

Junto desses coturnos e esculturas,
Fico olhando por entre as sepulturas,
A lembrança de nós dois, passeando...

Derek Soares Castro

* Versos decassílabos no ritmo Martelo Agalopado (3ª, 6ª e 10ª).

domingo, 7 de agosto de 2011


Exéquias d'Aurora

De rendas vestalinas, sendilhadas,
Em diáfanos véus auroreais,
Caídos brandamente, sepulcrais,
Por sobre as alvas mãos frias, finadas...

Por melífluos matizes outonais,
Em contraste co'as sedas, bem bordadas,
Na plenitude dessas vãs caladas,
Passou todo o cortejo cheio d'ais!

No embalo duma marcha langorosa,
A passarada flébil e chorosa
Cantava a mais nostálgica balada;

A abóbada celeste no infinito,
Abriu-se no céu mais puro e bonito,
Levando a minha eterna, sempre amada!

Derek Soares Castro

sexta-feira, 5 de agosto de 2011


Esvanecendo...

A Ela

Que dor inda me causa essa ferida,
Quando tu, pelas campas, corredores,
Andavas a cismar cheia d'horrores,
D'olhares reflexivos — distraída.

Longe, qual uma sombra tão perdida,
Tu vinhas pelos fúnebres verdores;
Contemplando a beleza dos clamores,
Duma escultura em mármore, esculpida.

Pelos perpétuos bancos tu sentavas,
Com as mãos ao regaço, solitárias...
E os teus negros cabelos pelos ares...

E arrastando os coturnos tu passavas,
Dentre as tênebras; campas mortuárias,
Na solidão dos prados tumulares.

Derek Soares Castro

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)


Elizabeth

Ao pé deste anjo num olhar absorto,
Lembro-me bem de todos os momentos;
Das tuas mãos, teus dedos macilentos,
Tacteando a expressão dum rosto torto;

E dos negros coturnos — violentos —
Pisavas o relvedo seco e morto;
Silenciosamente aqui neste horto
De mármores, sepulcros, monumentos...

Ouço inda tua voz, distantemente...
Num eco que s'esvai, longe, morrente,
Enchendo-me os ouvidos de saudade...

Volto agora ao pé deste anjo marmóreo,
Ao ver que junto dum sepulcro flóreo
Fica a dormir a nossa mocidade...

Derek Soares Castro