terça-feira, 27 de setembro de 2011


As Minhas Mãos

As minhas mãos são mortiças, esguias;
Vagos fantasmas, perdidos e absortos,
Têm a frieza dos túmulos mortos
Das pedras brancas, marmóreas e frias...

Enlanguescidas, tão magras, vazias...
Têm os relvedos de fúnebres hortos;
E os dedos longos, ebúrneos e tortos,
Formam arcaicas colunas sombrias...

Têm o requinte de góticas naves,
Marmorizadas, regélidas, graves,
São assimétricas, lúridas, cruas!

Ah minhas mãos! Solitárias, errantes,
Tão cadavéricas, tristes, minguantes,
Nunca encontraram as sedas das tuas!

Derek Soares Castro

* Versos decassílabos no ritmo Provençal / Gaita Galega (4ª, 7ª e 10ª).

segunda-feira, 19 de setembro de 2011


Jardins de Mármore

Naqueles campos cinéreos, antigos,
Nos corredores mortais, derradeiros,
D'onde a brumosa fatal dos sobreiros
Cobre os umbrosos, silentes jazigos.

Os monumentos em pétreos castigos,
Tão taciturnos, sem vida, sem cheiros!
Tão lacrimosos nos vis nevoeiros
Desses jardins d'esquecidos abrigos.

D'arquitetura dos anjos tristonhos,
Em formas lúgubres, rostos medonhos,
Tão embuçados nos tempos, antigos...

E eu contemplando, passava olvidado,
Dentre os ciprestes; tão triste e cansado,
Na paz perpétua dos mortos abrigos!


Derek Soares Castro

* Versos decassílabos no ritmo Provençal / Gaita Galega (4ª, 7ª e 10ª).

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

(Cemitério São Sebastião - Rosário do Sul - Foto por Derek Soares Castro)

Herança Perpétua

Quando eu me for à negra sepultura,
Em passo dum cortejo, sem ninguém;
Hei-me de ouvir nas árvores o amém
Das folhas farfalhando com tristura.

E tu Amor, tu hás de ouvir d'alguém,
Ou d'algum necrológio, porventura,
— A nota duma morta criatura —
Que partiu a chorar rumo do além.

Mas, não te fiques triste, nem saudosa,
Não me leves nenhuma bela rosa
Para enfeitar o meu último abrigo.

Pois, quando perceberes ao teu peito,
Um pulso enamorado e satisfeito,
É o meu coração, qu'eu deixei contigo!

Derek Soares Castro

sábado, 10 de setembro de 2011


Anne Says

Daquela última vez qu'eu vi teu rosto,
Numa expressão final, a face linda;
Do nosso último beijo eu sinto ainda
Aqui nos lábios meus aquele gosto.

Da tua boca, o lábio teu proposto,
Tem-me a escutar tão triste e trágica, inda,
Toda aquela palavra que não finda,
Aquele adeus que então me foi imposto.

Sob as chuvas daquele anoutecer,
Deixaste-me tão só, morto ao te ver,
Deixando o calafeto; os braços meus;

Todas as noutes, desde esse atro dia,
Escuto o lábio teu que me dizia
Sussurrando a chorar: — Adeus! Adeus!

Derek Soares Castro