sexta-feira, 11 de maio de 2012


Funeral de Chuva

Dia brumal de negra tempestade,
Cúmulos, ecos, tristes ressonâncias...
A chuva geme em flentes dissonâncias,
Gemendo a soluçar, minha saudade...

Penumbras, sombras, turva claridade...
Pela janela, em minhas vigilâncias,
Vejo a passar nas lívidas distâncias,
O préstito da minha mocidade...

Memórias e mortalhas que me envolvem...
Meus dias langorosos se dissolvem...
Em brumas e fumaças e torpor...

Sombra de chuva, sombra fria e nua,
A chuva passa em préstito na rua,
Gemendo a soluçar a minha dor...

Derek Soares Castro
26/27 de Abril de 2012

domingo, 1 de abril de 2012

Visões da Meia-Noite


Nessas ermas alturas tão sombrosas,
Vaga a lua soturna que me encanta,
Tal se fosse o cadáver duma santa,
Envolvido por brumas lutuosas.

Nessas noutes de trevas suspirosas,
A minh'alma da vala se alevanta,
Para olhar essa lua que abrilhanta,
Transmutando-se em formas curiosas.

E parece um errante cisne branco,
Embalado, perdido sobre o flanco,
Pelas águas dum lago; tão sem norte...

Vaga a lua... Tristonha senhorita!
Qual um olho envolvente que me fita,
O olho imenso, fatídico da morte!

Derek Soares Castro
11 de janeiro de 2012

* Versos decassílabos no ritmo Martelo Agalopado (3ª, 6ª e 10ª).

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Réquiem d'Outono

Dos galhos, desprendidas pelos ventos,
Caem as folhas mortas pelo chão,
Esparsas aos beirais dos calçamentos,
Nesse farfalhejar de solidão.

Dos campanários soam os mementos,
Sinos a badalar em oração,
Em ressonâncias pelos firmamentos,
Cadenciando tal composição.

Nas curvas desses arcos ogivais,
Mussitam os suspiros tão sacrais,
Dos sinos encerrando mais um dia...

E vejo os secos galhos s'entrezando
Em devoção, e as árvores rezando,
Nessa hora divinal d'Ave-Maria!

Derek Soares Castro

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012


Memória Cemiterial

Lembras inda das tardes — Amor —
No silêncio, na paz dum jazigo?
Se tu não lembras, disto que eu digo,
Os jazigos, sim, lembram com dor.

Lembras inda do fúnebre alvor,
Duma lousa dum mármore antigo?
E também que trazias contigo
Algum livro d'algum triste autor?

Dos coturnos, metais, e fivelas,
Maquilagens chorosas, tão belas!
Ah, quiçá tu já nem lembres mais...

Não importa se tu não lembrares,
Pois as campas finais, tumulares,
Olvidar, elas não vão! Jamais!

Derek Soares Castro

* Versos Eneassílabos em Gregoriano Anapéstico (3ª, 6ª e 9ª).

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011


Irônica Desventura

Longe se ia o coveiro ao cemitério,
Aos soluços carpindo a desgraceira;
Levando a velha, sempre companheira,
Pá, num labor horrífico e funéreo;

E sobre um mausoléu pétreo e cinéreo,
Tanto se debruçava pela beira
Das lájeas; tal qual uma atra caveira,
Gemendo num tormento tão cimério.

E o que tanto o afligia o peito, forte...
Dizia para as pedras moribundas:
— Que destino este meu! Que triste sorte!

Mas, aquele que muitos; sepultava...
Por das covas a sete palmos fundas;
“Naquele dia a amada ele enterrava!”

Derek Soares Castro

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


Nos Braços de Maria

Recordo-me da imagem d'outro dia,
Daquele Cristo lânguido e cansado,
Todo chagado, mole e extenuado,
Caído no regaço de Maria.

Seu esvaído lábio parecia
Dizer o adeus dum jeito sussurrado;
E de Maria, o pranto soçobrado,
Na lágrima mais triste que caía.

Sua cabeça débil sobre o braço
Pendia por cair; e num abraço
Maria olhava os seus olhos sem brilho...

Na comoção divina que se via,
Parecia que o lábio de Maria,
Dava-se a chorar: — Meu Filho! Meu Filho!

Derek Soares Castro

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Etapas de um Adeus (Trilogia)
(Com Alysson Rosa)

  
O Velório

Puseram-na no féretro, entre as flores,
Trajada em mortas sedas dum vestido;
Guardava em mãos um terço revestido
Por pérolas d'egrégios esplendores.
  (Derek)

Lembrava um anjo meigo adormecido!
Consigo, no caixão, levava as dores,
Mas ainda, no semblante sem fulgores,
Notava-se vestígios de um gemido...
  (Alysson)

E no interior da sala derradeira,
Na prisca longarina de madeira,
Tal carpideira em lágrimas se ajunta.
  (Derek)

Em volta do ataúde, negras velas
E a derreter também, choravam co'elas
Os entes mais chegados da defunta.
  (Alysson)

***

O Cortejo

Numa manhã luctífera e outonal,
Um préstito funéreo prosseguia,
Levando o frio esquife que possuía
O corpo duma musa sepulcral.
  (Derek)

A flauta, em abissal melancolia,
Acompanhando os passos do pessoal
Que acompanhava a morta, soava igual
À dor que o vento lúgubre assobia.
  (Alysson)

E nessa linda e triste melodia,
Além do soluçar, também se ouvia
Cantar chorando os anjos pelos céus.
  (Alysson)

E num caminho tétrico e eternal,
Seguia ao longe o préstito final,
Sumindo dentre os velhos mausoléus...
  (Derek)

***

O Funeral

Ao pé da vala a turba deplorava,
A olharem o coveiro preparar
O derradeiro abrigo, o atroz lugar,
Que a morta tristemente já aguardava.
  (Derek)

Enquanto triste o padre sufragava
As preces que pairavam sobre o ar,
A lura aberta ansiava devorar
A caixa em que a finada repousava.
  (Alysson)

O povo estava em pranto, soluçando,
Enquanto a fúnebre urna foi baixando,
P'ra então permanecer naquela cova...
  (Alysson)

Caíam brancas flores encobrindo
O lúrido ataúde que partindo,
Descia à terra lúgubre que o encova!
  (Derek)

***
Derek Soares Castro / Alysson Rosa
Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011


Nossa Mocidade

À Minh'Amada por todos esses anos juntos

Lembra-te Amor, dos tempos tumulares,
Aqueles dias negros e marmóreos
Que andávamos naqueles prados flóreos,
Na solidão dos túmulos, milhares.

Lembra-te Amor, também d'outros lugares,
Daqueles nouteceres ilusórios,
Que ouvíamos os sinos merencórios
Do alto dos campanários, pelos ares.

E apenas as memórias nos ficaram...
Pois, desses tempos todos só restaram,
Saudades, nostalgias, tantos ais...

Guarda contigo todas as memórias,
Nossas sacrais, miríades d'histórias,
Que os tempos — Meu Amor — não trazem mais!


Derek Soares Castro


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

(Catedral Metropolitana de Porto Alegre - Foto por Derek Soares Castro)

Lamentos de Bronze

Do prisco campanário, o brônzeo sino,
Novamente repica o seu lamento,
Em um réquiem tão triste e mofino,
Nesse Ângelus silente e macilento.

Que sonância! Que treno tão divino!
Que profundo e nostálgico memento!
Que fica soluçando sem destino
Enchendo d'ecos todo o firmamento.

Do campanário, longe, s'estremece...
Esse badalar tal qual uma prece,
Tilintando repleto d'aflição!

O meu peito é este prisco campanário,
Onde o meu coração tão solitário,
Badala a soluçar de solidão!

Derek Soares Castro


terça-feira, 25 de outubro de 2011

(Cemitério do Honório Lemes - Foto por Derek Soares Castro)

Cristo de Mármore

Se este Cristo marmóreo escutasse
Os segredos que um dia trocamos,
As promessas que outrora juramos,
— Ah, talvez que Ele a rir se cansasse;

Se este Cristo marmóreo lembrasse
Dos amores que nós sustentamos,
Tudo aquilo que nós partilhamos,
— Talvez Ele hoje, então duvidasse.

Se o que rimos aos nossos vint'anos,
Ais d'amor, ais de sonhos e enganos...
E se então tivesse olhos e visse,

Os espectros que nós hoje somos,
Tão mudados daquilo que fomos...
— Talvez que Ele a chorar se partisse.

Derek Soares Castro

* Versos Eneassílabos em Gregoriano Anapéstico (3ª, 6ª e 9ª)
*Adaptação em soneto do epitáfio “A Pedra” de Carlos Amaro.