segunda-feira, 1 de junho de 2026

 


Amor Aeternus

Nós que andávamos, no verdor dos anos,
À sombra de ciprestes e poentes,
Contemplando os funéreos oceanos,
E a solidão das sendas tão silentes;

Pelo destino e seus traçados planos,
Regamos as espirituais sementes,
Selando nossas almas nos arcanos
Da paixão entre os mármores jacentes.

E um dia, quando exânimes, calados,
Os nossos esqueletos abraçados
Forem dormir sonhando a mocidade,

Nestes mesmos caminhos que passamos,
Abrir-se-ão da terra os longos ramos,
De nosso amor florindo a eternidade.

Derek S. Castro
Maio 2026

*Ilustração feita por mim em 2016.

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Visões do Entardecer

Serenamente ao céu que se recria,
Expondo um misto de colorações,
Recorta os cerros uma luz tardia,
Diluindo-se em amenas variações; 

A noite, então se avulta em harmonia
Sob um vitral de etéreas dimensões,
Que transparece a treva e evidencia
A face das lunares transições. 

Junto à paisagem, perolando a fronte,
Fulgem constelações ao horizonte, 
E os campos, inspirando-se por vê-las, 

Como se fossem vastos firmamentos,
Revelam os luzentes surgimentos 
De vaga-lumes imitando estrelas. 

Derek S. Castro
Agosto/Setembro 2024 / Blumenau - SC

 

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

  


A Última Tela

O Sol em seu declínio regular,
Num misto oleoso, a dissolver a chama,
Espelha a sua imagem sobre o mar,
Onde por entre as ondas se derrama. 

Nessa paleta, a luz crepuscular,
Variando num contraste que se inflama,
Cria um dourado etéreo e singular,
Manchando o tom azul do panorama. 

E aos poucos sob a treva que se avulta,
O Sol em um final momento oculta
Além do mar, a ensanguentada fronte. 

E a noite, debruçada em negro manto,
Salpica as águas, cravejando um pranto,
De lágrimas de estrelas no horizonte.

Derek S. Castro
Julho/Agosto de 2024 / Blumenau - SC


quinta-feira, 25 de julho de 2024

 


Cicadidae

Paira por entre as verdes ramarias:
Uma sonoridade tão vibrante!
São cânticos, agrestes harmonias
Uníssonas em um rumor constante; 

O ambiente todo, nesses quentes dias,
Afeita-se a esse ciciar tocante;
E o vento, que percorre as pradarias,
Leva esse som ainda mais adiante... 

Ouve! Parecem vozes, chamamentos,
Talvez tristezas ou contentamentos,
Frequências de sonantes algazarras... 

Ouve! Porém, não tentes compreender,
Não pode o ouvido humano perceber,
A mística poesia das cigarras.

Derek S. Castro
Julho de 2024 / Blumenau - SC


segunda-feira, 10 de abril de 2023


Autunescência

De pouco a pouco, o outono vai mostrando
À Natureza os cíclicos enredos,
Enlanguescendo as florações, drenando
O víride vivaz dos arvoredos...

Variados ancenúbios vão borrando
A tela desses núperos degredos,
Onde os jardins repousam, relembrando
Os tenros dias, estivais e ledos.

Assim, tal qual as estações, a vida,                 
Em um espelho símil se apresenta,              
Sob uma orgânica ordem definida.

Pois, ante o tempo e a foice tão voraz,
A fauna, a flora, o humano ser lamenta;
A primavera que ficou pra trás.

Derek S. Castro
Março/Abril de 2023

*Autunescência é um neologismo que eu criei.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

 


Poente Sobre Tela

Feito uma galeria, o firmamento
Expõe as obras de um oculto artista;
Tingido o poente de um viscoso unguento,
Tons quentes, carmesins, compõem a vista;

No qual o Sol, num último momento,
— Em uma rúbida paleta mista —
Contrasta o seu dourado macilento,
Diluído na paisagem intimista.

Texturas, sombras, luzes e camadas,
Combinam-se em precisas pinceladas,
Sobre o ocidente que se faz de tela.

Espátulas, solventes e pigmentos...
Ninguém conhece os raros instrumentos
Da arte que a Natureza nos revela.

Derek S. Castro
Dezembro de 2022

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018


Mabon

III 

Veste o horizonte o tom crepuscular,
Diluências de outonais vermelhidões...
O ambiente traz a calma singular,
Nos firmamentos, nas imensidões. 

Dos plátanos desprendem-se, a tombar,
As folhas em sonoras multidões;
O solo então parece amortalhar;
Tingido por carnais colorações. 

Os bosques, vales, rios, pradarias,
Afeitos por profundas letargias,
Prostram-se em um oculto saudosismo... 

Expande-se o equinócio sobre a Terra.
O Outono a toda Natureza encerra,
No ciclo de seu grande misticismo. 

Derek S. Castro
Novembro/Dezembro de 2018

*Este soneto faz parte de uma quintologia chamada "A Roda dos Ciclos".

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Os Quatro Ciclos

  Quadrilogia composta com Rafael Dalle Vedove


I. Primavera

Nasceu a flor primeira. Na alvorada,
O céu, um pálio azul de luz e riso.
Emana o Sol uma aura iluminada,
Num brilho de esplendor rico e preciso.

As florescências tomam formas, cada
Pétala é como um véu sedoso e liso;
A Primavera é a veste matizada,
Que a terra traja do fugaz paraíso.

As árvores se voltam pro universo,
E cada ramo canta como um verso
Que do âmago da vida surge, brota...

E do suntuoso altar da Natureza,
Formam-se os viridários da beleza,
Onde absoluta, a flora se devota!

***

II. Verão

Acende-se do estio a rubra chama
Que o firmamento todo se reveste.
O Sol em opulência se derrama
Nos raios de um incêndio azul-celeste.

Um mussitar longinquamente clama...
A se compor de um ciciar agreste;
É o canto das cigarras, que proclama
A cálida estação, que em som se veste.

Já do horizonte, no findar da tarde,
O Sol, como um brasão de fogo que arde,
Dá-se a deitar no seio da amplidão.

A noite adentra. E ao céu se estende um lenço
Que brilha nos fulgores de um incenso,
Coroando a clara fronte do Verão.

***


III. Outono

Declinam-se as paisagens lentamente,
Tingidas de saudades e abandono...
As folhas murmurejam pelo ambiente
A prenunciarem o solene Outono!

A terra, dantes rica, agora é doente,
Tornando-se esquelética, com sono.
O Sol, cantor dos astros... É silente...
Perdeu a refulgência, o viço e o trono.

Um manto de tristeza e decadência
Velando a relva, vai, pela cadência.
Dos pulsos já cansados da estação...

E tombam macilentas, meigas flores,
Sonhando a Primavera e suas cores,
Num outonal jardim de solidão.

***


IV. Inverno

Por fim, chegado o alvor das invernias
Trazendo o véu palente dos nevoeiros,
A Natureza ao término dos dias,
Curva-se em seus momentos derradeiros.

A neve cobre os campos de agonias,
Os lagos se congelam por inteiros.
E gris, faz-se a paleta de ardentias
Que outrora ungia o topo dos outeiros.

Sem ter a luz do Sol que tudo aquece,
A fauna, a flora, tudo se adormece
Nos organismos álgidos da terra.

Do tempo, em sua célere fluidez,
Volteia a roda mística outra vez...
O ciclo natural, então, se encerra.

***
Derek S. Castro / Rafael Dalle Vedove
Julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017


In Silentio

À meia-luz do claustro, no convento,
Das mãos em um rosário, entrelaçadas,
Absorta estava a freira em seu momento,
Em orações, em preces devotadas.

De joelhos sob os pés do monumento,
Rogava com as pálpebras fechadas.
Estava ali o Cristo macilento
Com as esguias mãos na cruz, pregadas.

Vinha-se da janela vagamente
Uma centelha frouxa e alvinitente,
Que a face do alto Cristo iluminava;

E dessa luz, então, se ver podia,
Que a freira em seu orar não percebia, 
Que o Cristo, a sua face, contemplava.

Derek SCastro
Julho de 2017
*Reescrito em Junho de 2025.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


Post-Mortem

As mãos de lapidadas estruturas,
— Em entretons palidamente frios —
Expunham invernais temperaturas 
Prostradas entre rendas e atavios. 

Aos seus cabelos de ondulados fios,
Pairava o olor de brancas flores puras,
Dispersas nos estofos tão macios
De um féretro de ilustres talhaduras. 

Pelos vitrais do templo, parcialmente, 
Uma luminescência alvorecente 
Banhava a sua face enlanguescida, 

A revelar feições de paz e sono,
Como uma típica manhã de outono,
Gelada, silenciosa, adormecida... 

Derek S. Castro
18 de Outubro de 2013
*Reescrito em Outubro de 2023

sexta-feira, 8 de março de 2013


Antigas Florescências

Nos idos tempos, quando as tenras flores,
Da infância germinaram numerosas,
Ao coração, ergueram-se em fulgores,
Jardins de florações esplendorosas; 

De edênicos painéis multicolores,
Pintados sob auroras luminosas,
Onde as primaveris visões de amores,
Mostravam-se por flores vaporosas... 

Porém um dia, o tempo e as transições,
Ceifaram dos jardins, as florações,
Diante da lei das efemeridades... 

Ao coração, das flores que o enfeitaram,
Somente as murchas pétalas restaram,
Numa outonal coroa de saudades. 

Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013
*Reescrito em Agosto de 2024

sábado, 29 de dezembro de 2012

Caros leitores,

Venho comunicar sobre a publicação da Antologia “Lira da Morte” em versão impressa e também e-book.

Esta antologia reúne sonetos de poetas contemporâneos, porém com estilo clássico, inspirados pelos grandes poetas de outrora.

Com uma atmosfera melancólica e sombria, os versos que compõem tal obra vão desde declarações líricas à beleza morta e ao encanto noturno, até profundas reflexões sobre a morte, a solidão e a dor da existência.

São no total 57 sonetos, de 14 autores, sendo a maioria jovens, cada um com a sua singularidade, mas todos com o objetivo de jamais deixar morrer a verdadeira poesia.

Os ilustres poetas que compõe esta obra são:

Alysson Rosa
Arão Filho
Derek Soares Castro
Felipe Valle
Gabriel Rübinger
Ivan Eugênio da Cunha
Matheus de Souza
Maurilo Rezende
Nestório da Santa Cruz
Quintiniano
Renan Tempest
Rommel Werneck
Rosany Vieira
Sérgio Carvalho

Quem quiser obter o livro basta acessar o site Clube de Autores, ou o link:


Obrigado.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Mocidade e Senescência
              
Bateu-me à porta a prévia vetustez,
Quando me havia ainda mocidade;
Vi se enrugar em súbita acuidade
O celular vigor da minha tez.

Das minhas mãos, que outrora em avidez
Gozavam a fartar jovialidade,
Caíram no tremor da minha idade
Lançadas no torpor da languidez;

E os meus ouvidos dantes tão precisos...
E os lábios meus ornados pelos risos...
Tudo se foi... Assim já se conclui!...

Somente os olhos meus não se fanaram,
Pois, na retina — trágicos — guardaram
Essas visões remotas do que eu fui.

Derek S. Castro
12 de Dezembro de 2012

domingo, 1 de abril de 2012

Visões da Meia-Noite


Surgindo atrás das serras invernosas,
A Lua cheia aos poucos se levanta,
Feito uma rara aparição de santa
Translúcida entre brumas cetinosas. 

Fluindo a romper as trevas silenciosas,
Sob um palor — que a Natureza encanta —
A sua face inteira se agiganta,
A transmutar-se em formas misteriosas... 

Afigurando um cisne etéreo e branco,
Flutua no remanso além do flanco,
Por enevoados lagos tão profundos... 

A mergulhar nos véus da noite vasta,
Pelo horizonte o seu perfil contrasta,
Como um portal aberto dentre os mundos.

Derek S. Castro
11 de janeiro de 2012

* Reescrito em Junho de 2025.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012


Réquiem d'Outono

Dos galhos, desprendidas pelos ventos,
As folhas cedem à desolação, 
Esparsas num sudário aos pavimentos,
Farfalhejando tons de solidão... 

Ao fundo, um sino encena os movimentos
De uma crepuscular composição;
É a voz do Outono a sussurrar mementos,
Litúrgicas cadências de oração. 

Salmos que a Natureza evoca ao poente,
Ritualizando o funeral luzente,
Do astro solar que se declina ao monte. 

Ao véu da escuridão que se acentua,
A noite acende o círio ideal da lua,
Nas aras altaneiras do horizonte. 

Derek S. Castro
Janeiro de 2012

*Reescrito em Julho de 2025.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Etapas de um Adeus (Trilogia)
(Com Alysson Rosa)

  
O Velório

Puseram-na no féretro, entre as flores,
Trajada em mortas sedas dum vestido;
Guardava em mãos um terço revestido
Por pérolas d'egrégios esplendores.
  (Derek)

Lembrava um anjo meigo adormecido!
Consigo, no caixão, levava as dores,
Mas ainda, no semblante sem fulgores,
Notava-se vestígios de um gemido...
  (Alysson)

E no interior da sala derradeira,
Na prisca longarina de madeira,
Tal carpideira em lágrimas se ajunta.
  (Derek)

Em volta do ataúde, negras velas
E a derreter também, choravam co'elas
Os entes mais chegados da defunta.
  (Alysson)

***

O Cortejo

Numa manhã luctífera e outonal,
Um préstito funéreo prosseguia,
Levando o frio esquife que possuía
O corpo duma musa sepulcral.
  (Derek)

A flauta, em abissal melancolia,
Acompanhando os passos do pessoal
Que acompanhava a morta, soava igual
À dor que o vento lúgubre assobia.
  (Alysson)

E nessa linda e triste melodia,
Além do soluçar, também se ouvia
Cantar chorando os anjos pelos céus.
  (Alysson)

E num caminho tétrico e eternal,
Seguia ao longe o préstito final,
Sumindo dentre os velhos mausoléus...
  (Derek)

***

O Funeral

Ao pé da vala a turba deplorava,
A olharem o coveiro preparar
O derradeiro abrigo, o atroz lugar,
Que a morta tristemente já aguardava.
  (Derek)

Enquanto triste o padre sufragava
As preces que pairavam sobre o ar,
A lura aberta ansiava devorar
A caixa em que a finada repousava.
  (Alysson)

O povo estava em pranto, soluçando,
Enquanto a fúnebre urna foi baixando,
P'ra então permanecer naquela cova...
  (Alysson)

Caíam brancas flores encobrindo
O lúrido ataúde que partindo,
Descia à terra lúgubre que o encova!
  (Derek)

***
Derek Soares Castro / Alysson Rosa
Novembro de 2011

segunda-feira, 7 de novembro de 2011


Nossa Mocidade

                                                                    À Minha Amada

Lembras-te, Amor, das tardes tumulárias, 
Daqueles tenros e longínquos dias,
Que o outono, e suas folhas temporárias,
Amortalhavam as silentes vias? 

E nós, por entre as campas centenárias,
Sentávamos a ouvir as ramarias,
Fitando as sérias expressões calcárias
Das esculturas sepulcrais e frias. 

Lembras-te dessas páginas perdidas?
Capítulos joviais de nossas vidas...
Prende-os ao peito; torna-os imortais! 

Guarda contigo todas as memórias:
Nossas vitais, nostálgicas histórias,
Que os tempos — meu Amor — não trazem mais!

Derek S. Castro
7 de Novembro de 2011
*Reescrito em Junho de 2025.


terça-feira, 30 de agosto de 2011


No Silêncio dos Túmulos

Naquelas tardes, sob as ramarias
De velhas e outoniças gameleiras,
Eu te aguardava, contemplando as vias,
E o farfalhar das folhas altaneiras; 

Nas alvas mãos, um livro tu trazias,
A vir por entre as campas derradeiras,
Sentavas junto a mim —  e então sorrias,
Folheando a tez das páginas primeiras... 

Tu entoavas... E as palavras no ar,
Moldavam-se ao melífluo rumorar
Das folhas em um recital etéreo. 

Que hoje, se me aprofundo relembrando,
A tua voz —  escuto — recitando: 
“O mar é triste como um cemitério!”

Derek S. Castro
Agosto de 2011

*Reescrito em Junho de 2025.
*O verso final é de autoria do poeta Augusto dos Anjos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011


Flores Mortas

Junto das pequeninas mãos unidas,
— Que um místico rosário as envolvia —
Flores primaveris recém-colhidas,
Formavam uma fúnebre harmonia. 

As frágeis pálpebras adormecidas,
Magoadas de uma roxa cor sombria,
Lembravam duas pétalas caídas 
Enfatizadas sobre a face esguia. 

Trajada com requinte, em renda e linho,
Opacos véus azuis, com sutileza
Pairavam sobre o féretro de pinho, 

Que pondo-se a fechar, em trágica hora,
Guardava aquela angélica pureza,
Como um crepúsculo cobrindo a aurora. 

Derek S. Castro
23 de Julho de 2011
*Reescrito em Outubro/Novembro de 2023.