segunda-feira, 2 de março de 2026

Visões do Entardecer

Serenamente ao céu que se recria,
Expondo um misto de colorações,
Recorta os cerros uma luz tardia,
Diluindo-se em amenas variações; 

A noite, então se avulta em harmonia
Sob um vitral de etéreas dimensões,
Que transparece a treva e evidencia
A face das lunares transições. 

Junto à paisagem, perolando a fronte,
Fulgem constelações ao horizonte, 
E os campos, inspirando-se por vê-las, 

Como se fossem vastos firmamentos,
Revelam os luzentes surgimentos 
De vaga-lumes imitando estrelas. 

Derek S. Castro
Agosto/Setembro 2024 / Blumenau - SC

 

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

  


A Última Tela

O Sol em seu declínio regular,
Num misto oleoso, a dissolver a chama,
Espelha a sua imagem sobre o mar,
Onde por entre as ondas se derrama. 

Nessa paleta, a luz crepuscular,
Variando num contraste que se inflama,
Cria um dourado etéreo e singular,
Manchando o tom azul do panorama. 

E aos poucos sob a treva que se avulta,
O Sol em um final momento oculta
Além do mar, a ensanguentada fronte. 

E a noite, debruçada em negro manto,
Salpica as águas, cravejando um pranto,
De lágrimas de estrelas no horizonte.

Derek S. Castro
Julho/Agosto de 2024 / Blumenau - SC


quinta-feira, 25 de julho de 2024

 


Cicadidae

Paira por entre as verdes ramarias:
Uma sonoridade tão vibrante!
São cânticos, agrestes harmonias
Uníssonas em um rumor constante; 

O ambiente todo, nesses quentes dias,
Afeita-se a esse ciciar tocante;
E o vento, que percorre as pradarias,
Leva esse som ainda mais adiante... 

Ouve! Parecem vozes, chamamentos,
Talvez tristezas ou contentamentos,
Frequências de sonantes algazarras... 

Ouve! Porém, não tentes compreender,
Não pode o ouvido humano perceber,
A mística poesia das cigarras.

Derek S. Castro
Julho de 2024 / Blumenau - SC


segunda-feira, 10 de abril de 2023


Autunescência

De pouco a pouco, o outono vai mostrando
À Natureza os cíclicos enredos,
Enlanguescendo as florações, drenando
O víride vivaz dos arvoredos...

Variados ancenúbios vão borrando
A tela desses núperos degredos,
Onde os jardins repousam, relembrando
Os tenros dias, estivais e ledos.

Assim, tal qual as estações, a vida,                 
Em um espelho símil se apresenta,              
Sob uma orgânica ordem definida.

Pois, ante o tempo e a foice tão voraz,
A fauna, a flora, o humano ser lamenta;
A primavera que ficou pra trás.

Derek S. Castro
Março/Abril de 2023

*Autunescência é um neologismo que eu criei.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

 


Poente Sobre Tela

Feito uma galeria, o firmamento
Expõe as obras de um oculto artista;
Tingido o poente de um viscoso unguento,
Tons quentes, carmesins, compõem a vista;

No qual o Sol, num último momento,
— Em uma rúbida paleta mista —
Contrasta o seu dourado macilento,
Diluído na paisagem intimista.

Texturas, sombras, luzes e camadas,
Combinam-se em precisas pinceladas,
Sobre o ocidente que se faz de tela.

Espátulas, solventes e pigmentos...
Ninguém conhece os raros instrumentos
Da arte que a Natureza nos revela.

Derek S. Castro
Dezembro de 2022

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018


Mabon

III 

Veste o horizonte o tom crepuscular,
Diluências de outonais vermelhidões...
O ambiente traz a calma singular,
Nos firmamentos, nas imensidões. 

Dos plátanos desprendem-se, a tombar,
As folhas em sonoras multidões;
O solo então parece amortalhar;
Tingido por carnais colorações. 

Os bosques, vales, rios, pradarias,
Afeitos por profundas letargias,
Prostram-se em um oculto saudosismo... 

Expande-se o equinócio sobre a Terra.
O Outono a toda Natureza encerra,
No ciclo de seu grande misticismo. 

Derek S. Castro
Novembro/Dezembro de 2018

*Este soneto faz parte de uma quintologia chamada "A Roda dos Ciclos".

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Os Quatro Ciclos

  Quadrilogia composta com Rafael Dalle Vedove


I. Primavera

Nasceu a flor primeira. Na alvorada,
O céu, um pálio azul de luz e riso.
Emana o Sol uma aura iluminada,
Num brilho de esplendor rico e preciso.

As florescências tomam formas, cada
Pétala é como um véu sedoso e liso;
A Primavera é a veste matizada,
Que a terra traja do fugaz paraíso.

As árvores se voltam pro universo,
E cada ramo canta como um verso
Que do âmago da vida surge, brota...

E do suntuoso altar da Natureza,
Formam-se os viridários da beleza,
Onde absoluta, a flora se devota!

***

II. Verão

Acende-se do estio a rubra chama
Que o firmamento todo se reveste.
O Sol em opulência se derrama
Nos raios de um incêndio azul-celeste.

Um mussitar longinquamente clama...
A se compor de um ciciar agreste;
É o canto das cigarras, que proclama
A cálida estação, que em som se veste.

Já do horizonte, no findar da tarde,
O Sol, como um brasão de fogo que arde,
Dá-se a deitar no seio da amplidão.

A noite adentra. E ao céu se estende um lenço
Que brilha nos fulgores de um incenso,
Coroando a clara fronte do Verão.

***


III. Outono

Declinam-se as paisagens lentamente,
Tingidas de saudades e abandono...
As folhas murmurejam pelo ambiente
A prenunciarem o solene Outono!

A terra, dantes rica, agora é doente,
Tornando-se esquelética, com sono.
O Sol, cantor dos astros... É silente...
Perdeu a refulgência, o viço e o trono.

Um manto de tristeza e decadência
Velando a relva, vai, pela cadência.
Dos pulsos já cansados da estação...

E tombam macilentas, meigas flores,
Sonhando a Primavera e suas cores,
Num outonal jardim de solidão.

***


IV. Inverno

Por fim, chegado o alvor das invernias
Trazendo o véu palente dos nevoeiros,
A Natureza ao término dos dias,
Curva-se em seus momentos derradeiros.

A neve cobre os campos de agonias,
Os lagos se congelam por inteiros.
E gris, faz-se a paleta de ardentias
Que outrora ungia o topo dos outeiros.

Sem ter a luz do Sol que tudo aquece,
A fauna, a flora, tudo se adormece
Nos organismos álgidos da terra.

Do tempo, em sua célere fluidez,
Volteia a roda mística outra vez...
O ciclo natural, então, se encerra.

***
Derek S. Castro / Rafael Dalle Vedove
Julho de 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017


In Silentio

À meia-luz do claustro, no convento,
Das mãos em um rosário, entrelaçadas,
Absorta estava a freira em seu momento,
Em orações, em preces devotadas.

De joelhos sob os pés do monumento,
Rogava com as pálpebras fechadas.
Estava ali o Cristo macilento
Com as esguias mãos na cruz, pregadas.

Vinha-se da janela vagamente
Uma centelha frouxa e alvinitente,
Que a face do alto Cristo iluminava;

E dessa luz, então, se ver podia,
Que a freira em seu orar não percebia, 
Que o Cristo, a sua face, contemplava.

Derek SCastro
Julho de 2017
*Reescrito em Junho de 2025.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013


Post-Mortem

As mãos de lapidadas estruturas,
— Em entretons palidamente frios —
Expunham invernais temperaturas 
Prostradas entre rendas e atavios. 

Aos seus cabelos de ondulados fios,
Pairava o olor de brancas flores puras,
Dispersas nos estofos tão macios
De um féretro de ilustres talhaduras. 

Pelos vitrais do templo, parcialmente, 
Uma luminescência alvorecente 
Banhava a sua face enlanguescida, 

A revelar feições de paz e sono,
Como uma típica manhã de outono,
Gelada, silenciosa, adormecida... 

Derek S. Castro
18 de Outubro de 2013
*Reescrito em Outubro de 2023

sexta-feira, 8 de março de 2013


Antigas Florescências

Nos idos tempos, quando as tenras flores,
Da infância germinaram numerosas,
Ao coração, ergueram-se em fulgores,
Jardins de florações esplendorosas; 

De edênicos painéis multicolores,
Pintados sob auroras luminosas,
Onde as primaveris visões de amores,
Mostravam-se por flores vaporosas... 

Porém um dia, o tempo e as transições,
Ceifaram dos jardins, as florações,
Diante da lei das efemeridades... 

Ao coração, das flores que o enfeitaram,
Somente as murchas pétalas restaram,
Numa outonal coroa de saudades. 

Derek S. Castro
18/19 de Fevereiro de 2013
*Reescrito em Agosto de 2024